PROJECTO “OUVIR VOZES”

2022

A CRIAÇÃO

Em Março de 2021 a Direção-Geral das Artes (DGARTES) apoiou 19 projectos artísticos no âmbito do Programa Arte e Saúde Mental. Este programa tem como objetivo criar sinergias, através das artes, que contribuam para superar os desafios que são enfrentados na área da saúde mental em Portugal, promovendo o combate à discriminação e ao estigma associados à doença mental.  Esta linha de financiamento resultava de uma parceria com a associação P28.

Resultou deste financiamento o projecto Ouvir Vozes, produzido pela Marionet, que conta com a parceria do Movimento Ouvir Vozes, da Rádio Aurora, e do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. O objetivo é dar visibilidade e contribuir para o esclarecimento sobre a experiência de ouvir vozes que outras pessoas não ouvem, de forma a diminuir o estigma em torno dela.

O Projecto Ouvir Vozes assumiu o compromisso de abordar artisticamente a experiência de ouvir vozes, retratando o seu significado, a percepção sensorial, as mudanças ao longo da vida, os períodos de crise, mas também os de alternativa e o seu lugar numa narrativa de si mesmo.

No âmbito da intervenção social, o projecto contribui para sensibilizar para a experiência de ouvir vozes e para a diversidade de formas como esta experiência é vivida e compreendida por pessoas ouvidoras, combatendo o estigma e incentivando uma resposta positiva a experiências relacionadas, consciencializando para uma variedade de formas diferentes de lidar com vozes confusas, promovendo espaços seguros de partilha.

O PROJETO E OS SUAS VOZES PARALELAS

O que se propunha, então, era a criação e apresentação pública de um espectáculo de teatro, que promovesse a reflexão sobre a experiência, em conjunto com outras iniciativas, difundindo amplamente o tema. Complementarmente, foi criada uma instalação sonora a partir do espectáculo Vozes sem Conta; várias mesas redondas sobre o tema; difundidas várias emissões especiais sobre o tema no podcast da Rádio Aurora- A Outra Voz, do Hospital Júlio de Matos, assim como um conjunto de textos de opinião no P3, do Público.

O ESPECTÁCULO

O projeto resultou na criação de um espetáculo que promove a reflexão sobre a experiência de ouvir vozes. Foi seguida uma metodologia de teatro de base científica (research-based theatre): foram realizadas entrevistas a pessoas ouvidoras de vozes a partir das quais foi depois criada a dramaturgia do espetáculo.

Enquanto arte colectiva, o teatro resulta da reunião de uma diversidade de visões artísticas, que nós, propositadamente, exacerbámos na construção deste espectáculo. Por isso, as situações cénicas que o compõem resultam de uma multiplicidade de vozes, e reflectem diferentes perspectivas. Os discursos íntimos destas vozes interiores e aqueles que as ouvem, surgem aqui em papéis principais, numa ficção inspirada.

A INSTALAÇÃO SONORA

Paralelamente, foi também criada uma instalação sonora cuja sua primeira apresentação ao público foi feita entre 25 de Novembro e 10 de Dezembro de 2021, no Teatro da Cerca de São Bernardo.

“Estás a ouvir-me?” é um exercício sonoro concebido a partir de um espectáculo teatral sobre a experiência de ouvir vozes. Ao longo de 2021, a Marionet desenvolveu um processo de pesquisa, reflexão e discussão que culminou na apresentação do espectáculo”Vozes sem Conta”, no âmbito de um projecto mais amplo chamado “Ouvir Vozes”. Desde a sua génese, este exercício sonoro apresentou-se, tal como a peça, perante a dificuldade primordial de representar uma realidade tão diversa por quem nunca a experienciou. Por esse motivo, esta instalação sonora nunca pretendeu ser uma representação fiel ou realista do que é ouvir vozes. Nunca se direccionou no sentido de retratar as pessoas que lidam bem com as suas vozes nem quem, por outro lado, as quer silenciar. “Estás a ouvir-me?” nasceu a partir das múltiplas vozes ouvidas que se juntaram para dar vida a este projecto. A partir de uma pergunta que, no meio das 17209 palavras do guião da peça, desinquietou o autor da instalação, Sílvio Correia Santos.

MESA REDONDAS, SHARP TALK  E CONVERSA PÓS-ESPECTÁCULO

No dia 9 de Junho de 2021, realizou-se on-line a primeira mesa redonda do projecto “Ouvir Vozes”. Sob o tema “Ouvir (outras) vozes: que futuros para a saúde mental em Portugal?“, teve como intervenientes Allan Barbosa (Queer Tropical), Celina Vilas-Boas (Movimento Ouvir Vozes Portugal), Maria (Movimento dos Trabalhadores do Sexo), Rita Joana Pinheiro Maia (Associação Nacional de Cuidadores Informais), Shenia Karlsson (Instituto da Mulher Negra em Portugal), moderado pela Rita Alcaire do CES.

7 de julho de 2021, realizou-se, por Zoom, a SHARP Talk intitulada de “Há direitos humanos na psiquiatria? Saúde mental e justiça social na encruzilhada.”. A conversa foi dinamizada pelos investigadores do Centro de Estudos Sociais, Sílvia Roque e Tiago Pires Marques.

A 20 de Outubro de 2021, Rita Alcaire e Tiago Pires Marques participaram na Mesa Redonda “Ética e Investigação no CES”, no âmbito do XVI Ciclo de Jovens Cientistas, com Ana Cordeiro, Presidente da Comissão de Ética do CES, onde falaram sobre questões éticas na investigação em ciências sociais e do Projecto “Ouvir Vozes”.

A propósito do ciclo de diálogos gerados com este projecto, realizou-se também no dia 28 de Novembro de 2021 uma conversa pós-espectáculo. A proposta era a criação de um espaço onde as equipas artística e de investigação do projecto “Ouvir Vozes” falassem sobre o percurso de pesquisa e aprendizagem que conduziu ao espectáculo. A conversa teve o nome “Deixem Passar o Avião” e contou com a presença de todos os parceiros do projecto, bem como do público.

OS PODCASTS

A Rádio Aurora, do Hospital Júlio de Matos, realizou cinco podcasts no âmbito do projecto “Ouvir Vozes”, que integrou no já habitual programa de rádio que produzem semanalmente, com emissão em várias rádios nacionais e disponível, também, online. No primeiro episódio, são entrevistados Juš Škraban e Celina Vilas Boas, que fundaram o Movimento Ouvir Vozes Portugal. A entrevista à enfermeira Roberta Machado é transmitida em duas partes no segundo e terceiro episódio do podcast. No quarto episódio é a vez de Erika van Der Hakken, assistente social, que trabalha com ouvidores de vozes. O quinto episódio será emitido brevemente.

Episódio 34 (30 de setembro de 2021), com Movimento Ouvir Vozes Portugal

Episódio 35 (7 de outubro de 2021), com Roberta Machado – 1.ª parte 

Episódio 36 (14 de outubro de 2021), com Roberta Machado – 2.ª parte

Episódio 41 (18 de novembro de 2021), com Erika van Der Hakken

 

ARTIGOS NO P3

Fruto de uma parceria com o P3, do Público, foram publicados também seis artigos, escritos por elementos das diferentes entidades parceiras.

Movimento Ouvir Vozes Portugal, Celina Vilas-Boas,  12 Maio de 2021

Há um aparente consenso de que ouvir vozes que outras pessoas não ouvem é, necessariamente, um problema, sinónimo não só de loucura, mas também de violência, servindo esse suposto perigo como justificação para que se usem todos os meios para as suprimir e/ou afastar a pessoa da vida em sociedade. O facto é que estas experiências são muito mais comuns e muitíssimo mais variadas do que imaginamos.

Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Rita Alcaire, 26 de Maio de 2021

A experiência dos elementos desta equipa transdisciplinar (comunicação de ciência, cinema, som, teatro, ciências sociais, saúde mental e activismo) é essencial para promover este diálogo ‘artadémico’ que dá a conhecer experiências associadas a viver com questões de saúde mental enquanto expande o diálogo sobre o fenómeno de ouvir vozes

Marionet, Nuno Geraldo, 13 de Agosto de 2021

E o desafio é escrever sem ignorar as dificuldades de quem as ouve e sem as reduzir a sintoma de doença mental. Mas abrir espaços de expressão para as vozes e as pessoas ouvidoras. A dificuldade é encontrar as vozes e os termos em mim que quem ouve vozes possa reconhecer como sendo seus.

Rádio Aurora – A Outra Voz, 10 de Outubro de 2021

Ouvir vozes de uma forma ou de outra é natural, assim como ter uma doença mental… pode acontecer a qualquer um. Às pessoas que ouvem vozes devemos atentamente escutar e nelas acreditar. Não é por não acontecer a nós que devemos duvidar.

Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Tiago Pires Marques, 5 de Dezembro de 2021

O Movimento Ouvir Vozes oferece um espaço de partilha de experiências e de escuta, portanto essa “outra forma de cuidados intensivos” própria do medicar paciente. Este movimento, já com mais de 30 anos de história, ao oferecer um espaço de sociabilidade liberto do estigma associado a esta e outras experiências incompreendidas, é inspirador de uma atitude necessária a uma sociedade mais inclusiva.

Marionet, Mário Montenegro, 17 de Fevereiro de 2022

É difícil, para quem não ouve vozes, colocar-se no lugar de quem as ouve. Na tentativa de atenuar esta dificuldade, fomos, ao longo do processo de criação da peça, aproximando-nos dessa realidade, ouvindo e questionando quem vive com ela, e imaginando circunstâncias nas nossas experiências de vida que nos permitissem alcançar o que poderá ser essa vivência.

“VOZES”, PELOS ALUNOS DE ESTUDOS ARTÍSTICOS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Os alunos de Estudos Artísticos, sob a orientação de Mário Montenegro, apresentaram, do dia 19 de Maio de 2021, publicamente, os seus trabalhos de Oficina de Teatro em articulação com o projecto “Ouvir Vozes”, em torno da experiência de ouvir vozes que outras pessoas não ouvem e que deu origem a este Vozes.

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