A Marionet no Jornal Universitário de Coimbra

2020

Partilhamos convosco um excelente artigo publicado hoje, dia 17 de Maio de 2020, pelo Jornal Universitário de Coimbra, A Cabra, sobre A Revolução dos Corpos Celestes, em particular, e o trabalho da Marionet, em geral.

 

Deus Ex Machina: A Ciência Muda de Cenário

 

A Marionet cruza, há 19 anos, duas espécies que se julgam, à partida, imiscíveis. Número de projetos e colaborações duradouras atestam que, quando se junta Arte e Ciência, brotam ideias e novos rumos. Por Antónia Fortunato

Para encontrar o Teatro da Cerca de São Bernardo (TCSB), um dos muitos palcos da companhia de teatro Marionet, basta subir a Azinhaga do Carmo ou passar pelo Pátio da Inquisição. A arquitetura contemporânea do TCSB contrasta com a ruela apertada característica da baixa de Coimbra. Ao entrar, a sala de espetáculos parece vazia, mas enche-se rapidamente com os sons do trabalho dos técnicos que, do alto das varandas, preparam o espetáculo de celebração dos 20 anos da Marionet.

O diretor do grupo de teatro, Mário Montenegro, senta-se num banco azul elétrico na primeira fila da bancada extensível, ao nível do palco. O chão de madeira cinzento-escuro corre ininterrupto ao longo da sala, une palco e plateia, convence quem se senta na primeira fila de que está dentro da boca de cena.  O ambiente intimista do anfiteatro, aliado ao cenário em construção e ao trabalho da equipa técnica, ajudam à sensação desconcertante de se “espreitar por debaixo da cortina”. Mário Montenegro conta, com placidez, a origem da Marionet e a sua evolução ao longo de duas décadas. Prepara neste momento a remontagem da peça “A Revolução dos Corpos Celestes”, que viria a ser cancelada ainda nesta semana, por forças maiores.

A génese da companhia

Se compararmos o percurso da Marionet com a evolução da vida na Terra, a criação do grupo é o equivalente ao Caldo Primordial, fonte da vida orgânica, de há 4 mil milhões de anos. A companhia começou como um projeto de dois amigos que “pretendiam fazer o tipo de teatro de que gostavam”, na altura sem pretensões científicas. A Origem da Vida – leia-se, a ligação com a ciência – veio com o segundo espetáculo, de nome “A Revolução dos Corpos Celestes”. O grupo procurava explorar “o momento em que o Homem deixou de estar no centro do mundo”, tendo por isso decidido focar o período de transição do geocentrismo para o heliocentrismo. Para ajudar na abordagem rigorosa do tema, a Marionet procurou um especialista que revisse a peça. Encontrou para o efeito o físico Carlos Fiolhais e estabeleceu-se assim a primeira parceria com a Universidade de Coimbra (UC). Por ser uma companhia que se dedica ao cruzamento entre as artes performativas e a ciência, Mário Montenegro considera que “a primeira peça de tema científico é simbólica” e constitui um momento histórico a assinalar. “A Revolução dos corpos celestes” foi por isso escolhida para assinalar os 20 anos de vida da Marionet.  A peça comemorativa é uma remontagem da original: “vamos olhar para ela com os olhos de hoje e tentar uma nova abordagem”, revela o diretor.

Cientistas da Arte: o malabarismo teatral aplicado à Ciência

Mário Montenegro considera a companhia especializada em trabalhar com e sobre a ciência. Esta experiência revela-se na forma clara e segura com que o diretor explica os temas científicos que são retratados nas iniciativas do grupo. Estes temas costumam ser desenvolvidos em parceria com alguns centros de investigação da UC e assumem formas para além das peças de teatro. A proximidade com a universidade surge por isso como uma vantagem para as atividades da Marionet.

Para muitos, o teatro e a ciência podem parecer a mundos de distância, mas o diretor da companhia e a coordenadora do Gabinete de Comunicação de Ciência do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC (CNC), Sara Amaral, garantem que esta é uma “combinação vencedora”.

Ana Rita Álvaro é investigadora no CNC e participa em alguns dos projetos dinamizados entre a Marionet e o centro de investigação. Concorda com Sara Amaral ao destacar a capacidade de Mário Montenegro de moldar temas científicos complexos com a linguagem teatral. O resultado é a transmissão da mensagem científica de forma leve, “com algum humor”, mas conservando o rigor devido. Descreve ainda os investigadores como muito focados no seu objetivo, pelo que este tipo de exercício pode permitir redirecionar a perspetiva científica para uma realidade mais próxima do público.

Em suma, porquê misturar arte e ciência? Porque o diálogo das disciplinas, a combinação entre o pensamento criativo e o pensamento crítico, traz benefícios claros: não só estimula a adaptação do discurso como permite o afastamento e reflexão sobre os tópicos em análise. Trocado por miúdos, obriga a “pensar fora da caixa”.

Duas décadas e um arco-íris de projetos

A companhia estreou-se na ciência através da cosmologia, mas desde então já foram retratados variados temas. Desde a ecologia de rios até doenças do sono, o principal foco tem sido as neurociências, não tivesse a Marionet uma parceria de 10 anos com o CNC. Mário Montenegro explica cada um dos projetos do grupo com a serenidade pouco característica de quem tem uma peça prestes a estrear, a antítese dos atores aglomerados no centro do palco à espera do diretor.

Para além do CNC, também o Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) colaborou com a companhia nos últimos anos. Em 2011, após acompanharem o trabalho dum grupo de investigação do MARE durante dois anos, a Marionet montou uma peça de teatro que alertava para o efeito das alterações climáticas nas populações de macroinvertebrados (uma “fauna muito pequenina”, nas palavras do diretor) dos sistemas ribeirinhos. Encontram-se agora a desenvolver um projeto com o MARE e outras entidades, o CresceRio. No final do projeto, que durante quatro anos pretende educar crianças e sensibilizar as populações sobre ribeiras urbanas, a companhia irá realizar um documentário sobre o tema do projeto e está ainda prevista a criação de uma peça de teatro com as crianças envolvidas.

A primeira colaboração com o CNC remonta a 2010, quando a companhia de teatro fez uma residência artística dentro do centro, ao longo de um período de sete meses. A partir daí, Mário Montenegro assegura que o contacto se manteve, adquirindo novas formas. Várias participações na Noite Europeia dos Investigadores, atividades de formação em comunicação de ciência para alunos de doutoramento do CNC, dinamização de pequenas peças para os encontros internos do centro de investigação, residências artísticas – tudo isto faz parte do reportório de projetos da Marionet, que ainda arranja tempo para montar peças de teatro ‘convencionais’.

Confrontado com a escolha entre um tipo de arte performativa, o diretor da companhia admite não conseguir escolher. “Eu não consigo estar a fazer sempre a mesma coisa, preciso de variedade”, revela com um sorriso nos olhos. Talvez por isso a companhia assuma projetos tão variados. Outro exemplo deste espírito indagador é o Laboratório do Desconhecimento, projeto colaborativo com o CNC. Aqui, o desafio passa por utilizar o teatro como uma janela para outros horizontes e possibilidades. As técnicas teatrais e o espaço aberto a discussões pretendem auxiliar os cientistas, nas palavras otimistas do diretor, a responderem às suas próprias questões científicas. Daqui resultam também atividades de divulgação na comunidade. Mário Montenegro revela, entre risos, que ainda não houve um momento ‘eureka’ para os investigadores participantes no Laboratório. Confessa, ainda assim, que tanto para ele como para a produtora executiva da Marionet, Francisca Moreira, houve um momento de viragem graças à participação no Laboratório. “Os momentos ‘eureka’ neste projeto passam muito por isso, tornar as pessoas conscientes”, explica.

Diligentes, Mário e Francisca pretendem arrancar com mais um projeto este ano: a tradução das peças de teatro que habitam o Centro de Documentação de Artes Performativas e Ciência. Este centro é uma biblioteca com peças de teatro relacionadas com ciência. As obras podem ser consultadas e requisitadas, mas a maioria não é portuguesa. A Marionet planeia, em colaboração com voluntários, traduzir as peças e organizar sessões públicas de leitura.

Inquietação e financiamento, os males comuns

Mário Montenegro licenciou-se em Engenharia Eletrónica, mas nunca exerceu a profissão. Tendo praticado teatro amador durante a faculdade, moveu-se com fluidez para o teatro profissional no final dos estudos. A sua procura por novos cenários ilustra bem a inquietação que firma a criatividade da companhia. Para além da diversidade de criações teatrais, também os temas, a forma e os processos de trabalho da Marionet sofrem constantes mutações. A relação íntima com a ciência permite uma metamorfose estética, exemplo disso a remontagem apontada para junho deste ano, no Teatro Académico de Gil Vicente, dentro das celebrações dos 20 anos da companhia. Aqui, a linguagem visual é traduzida através de novas tecnologias, neste caso, a realidade aumentada. O grupo também gosta de experimentar com o espaço teatral através do intercâmbio de ambientes, numa tentativa de misturar os mundos. Assim, os teatros criados são levados a museus ou laboratórios e as atividades científicas, como oficinas para crianças, começam a decorrer em centros de espetáculos.

Porém, Mário Montenegro alerta que, para um vasto leque de atividades, o financiamento é essencial. A Direção-Geral das Artes (DGArtes), entidade responsável pela atribuição de auxílios monetários, atribui apoios pontuais ou sustentados. A modalidade pontual destina-se ao suporte de projetos específicos, enquanto o apoio sustentado é atribuído às entidades artísticas para sustentar as suas atividades, por um determinado período. O financiamento sustentado permite à Marionet manter pessoas com contrato de trabalho a tempo inteiro.

De momento, a companhia é constituída por Mário Montenegro, argumentista e encenador, e a produtora executiva, Francisca Moreira, responsável pelos contactos e produção dos espetáculos. Só em 2017 é que a Marionet conseguiu financiamento suficiente para passar a ter os dois protagonistas na sua estrutura fixa, com contratos de trabalho a tempo inteiro. No entanto, como comprova o anfiteatro atarefado do TCSB, no decorrer dos projetos associam-se mais colaboradores, alguns assíduos há 20 anos. Num projeto comum, agregam-se cerca de 12 elementos em torno do duo fixo e a estes números juntam-se por vezes estagiários de áreas como Estudos Artísticos ou Marketing.

Para o diretor, os apoios sustentados traduzem-se num crescimento da capacidade de trabalho, ou seja, mais projetos realizados ao longo do ano. Nos anos em que a companhia obteve este tipo de financiamento da DGArtes, conseguiu não só apresentar peças antigas, como também aceitar projetos dos centros de investigação. Também a Câmara Municipal de Coimbra dá todos os anos um apoio monetário ao grupo de teatro, mas “é um apoio pequeno, não permite sustentar uma atividade regular”, adverte, resignado, Mário Montenegro. Da Ciência conseguem, por vezes, retirar algum contributo financeiro para os projetos colaborativos. Como explica Sara Amaral, a ligação de arte com a ciência é valorizada. “Temos conseguido financiamento para os projetos que concorremos para a Marionet”, acrescenta. Ainda assim, a DGArtes continua a ser a principal entidade de apoio à atividade da companhia e é, neste momento, insuficiente. Para o ano que decorre, a Marionet não conseguiu o apoio do organismo, o que deixa o futuro incerto.

Mário Montenegro sabe que desde que há ciência, há teatro sobre ciência, o que não lhe estranha, já que as duas disciplinas se resumem a formas de conhecer o mundo. “É possível alguém ter tudo em si, fazer ciência e fazer teatro”, afirma. Com 20 anos de experiência, a Marionet ajuda a comunicar e até a fazer ciência, provando que há distâncias criadas apenas pela nossa vontade.

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