ENTREVISTA: MARIONET, CASA DAS ARTES, COIMBRA | INDEPENDENT CULTURALSPACES

2012

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Crédito de foto: espectáculo “O Nariz” | Foto: Francisca Moreira

Entrevista a Alexandre Lemos e Mário Montenegro, da direcção da marionet 
com sede na Casa das Artes, Coimbra. A Marionet foi criada em Coimbra no ano 2000 com os objectivos de abrir espaço para o florescimento de novos profissionais nas diferentes áreas da criação teatral, e explorar caminhos artísticos diferentes daqueles que eram então desenvolvidos tanto em Coimbra como no resto do país. Desde Novembro de 2010 estão instalados na Casa das Artes da Fundação Bissaya Barreto na cidade de Coimbra.

1. A Casa das Artes, espaço de criação artística, abriu em Novembro de 2010, na Av. Sá da Bandeira, em Coimbra e alberga 3 associações culturais, A Marionet, A Camaleão e a Fila K Cineclube e pretende ser um eixo de comunicação entre as várias instituições culturais da cidade. Numa análise a médio prazo, que transformações esperam que a Casa das Artes exerça na cidade de Coimbra?

AL – A Casa está situada num eixo muito importante para a cidade. A Av. Sá da Bandeira une muitos espaços e criadores de Coimbra. Esperamos que a Casa seja um ponto de continuidade nesse eixo.

MM – Enquanto espaço público para usufruto de arte e cultura, que contribua para a definição e dinamização de um eixo cultural que se vem definindo de algum tempo para cá e que é delineado pela Av. Sá da Bandeira. Que seja um dos actores na criação eventual de uma zona urbana dinâmica e artisticamente efervescente. Enquanto espaço de criação artística, que seja um centro de partilha de recursos e troca de experiências e que funcione como um possível pólo de incentivo a artistas emergentes.

2. Por definição a Casa das Artes é uma incubadora cultural. A nível de concepção de projectos culturais e artísticos o que representa, para as três entidades que aí têm sede, um espaço como a Casa das Artes?

MM – Para a marionet tem uma valência múltipla. Funciona como espaço de gestão e produção, de criação artística, de exposição pública das criações, de encontro entre pessoas com interesses e ideias próximas. É aqui que se situa o cerne da nossa criação, o espaço onde as ideias que fervilham ganham substância e consistência. 

AL – Até aqui entre tudo o que tínhamos de inventar estava incluído o espaço de ensaios. Digamos que assim poupamos a criatividade para outras coisas.

3. Qual é o modelo de gestão definido para a Casa das Artes?

MM – Neste momento de arranque o modelo de gestão é de partilha de responsabilidades. As três estruturas que habitam a Casa das Artes têm já uma história de relacionamento em ambiente de partilha no contexto da MAFIA – federação cultural de Coimbra, que constitui não só um caso de sucesso de gestão e partilha de equipamento técnico entre entidades culturais, como também estende essa partilha a outras pessoas e estruturas não federadas. A gestão da Casa das Artes é uma extensão desse modo de relacionamento entre entidades, sendo a utilização da Casa resultado da articulação das necessidade e vontade de cada uma das residentes.  

AL – Temos também a entrega regular de projectos  e relatórios destes projectos à Fundação Bissaya Barreto como grande regulador do funcionamento da Casa. Depois funcionamos entre as associações como uma espécie de cooperativa, com regras e estratégias que se vão definindo ao longo do tempo e sobretudo das necessidades.

4. Enquanto directores da Marionet – Associação Cultural, como defines o valor da cooperação entre os agentes culturais independentes hoje em dia? Quais podem ser os principais motivos para fortalecer esta relação?

MM – A partilha de recursos num contexto, como é o das Artes, de permanente escassez de financiamento, é um modo inteligente de sustentar a actividade de estruturas de pequena e média dimensão. A cooperação tanto ao nível da partilha de equipamentos móveis e imóveis, quer para a fase de criação quer para a de exposição de trabalhos, como ao nível de recursos humanos ou know-how específico, permite tornar a criação artística relativamente independente de meios financeiros substanciais e fomenta a troca de experiências e consequente crescimento artístico. A circulação das criações, facilitada por uma rede cooperativa de espaços, ajuda ao aumento da visibilidade dos artistas e das suas redes de contactos.

5. Qual é a situação actual da Marionet – Associação Cultural no que se refere a modelos de financiamento e qual é a vossa relação com o Ministério da Cultura ou outras instituições públicas, como por exemplo com o Município de Coimbra? Exploram novas possibilidades de financiamento?

AL – Depois de ter sido apoiada pontualmente pelo Ministério ao longo de vários anos a companhia tem agora apoio sustentado aprovado até ao final de 2012. E, está prestes a assinar um protocolo com a Câmara Municipal. Estes apoios vêm complementar a ligação forte que já tínhamos a diversas instituições ligadas às artes e às ciências.

Além disso estamos a tentar construir uma rede de itinerância que traga uma maior visibilidade ao nosso trabalho, sobretudo junto dos públicos que já tinham mostrado interesse no nosso trabalho mas onde não conseguíamos levar os nossos espectáculos.

MM – Uma preocupação sempre presente é a tentativa de diversificação de apoios e parcerias como forma de evitar a dependência excessiva de apenas uma fonte de financiamento. Gradualmente temos vindo a ampliar a nossa rede de relacionamentos, com particular destaque para instituições ligadas à Ciência e à Educação.

6. Que vantagens teria a Casa das Artes, e as associações que acolhe, uma colaboração com outros espaços culturais independentes da Península Ibérica?

AL – Uma parte importante do futuro da marionet passa por fazer circular o seu trabalho numa rede suportada por afinidades artísticas e no sentido inverso acolher trabalhos e criadores com que nos identificamos. A Casa das Artes deve servir também para isso.

As outras estruturas que ocupam a Casa parecem ter objectivos muito similares pelo que podemos ainda beneficiar todos do contágio positivo desses eventuais acolhimentos.

MM – Entre os benefícios para as estruturas vejo uma maior visibilidade para o seu trabalho, a partilha de ideias e experiências e a possibilidade de colaborar criativamente com outras entidades artísticas. A Casa das Artes, em si, poderá ganhar uma maior vitalidade enquanto palco possível de um conjunto de manifestações culturais mais alargado.

Entrevista realizada no âmbito do projecto Identificação, Cooperação e Internacionalização de Espaços Independentes (Portugal & Espanha)

 

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